Um Barquinho na Enseada
Era tarde quando ela saiu do expediente. Vida de quem trabalha em hotel é frenética, ou se faz tudo que tem para fazer antes do expediente, ou depois, dependendo do seu horário. Ela era do turno da tarde/noite e saía muito tarde.
Namorar não estava nos planos, mas ela tinha um paquera, até bem bonito, que ela apelidou de "aquaman". Era um caiçara dourado de olhos cor de mar em fim de tarde de outono. Acredito que ela era mais atraída por ele que ele por ela. No entanto, quem a procurava era ele. Ela ia, mais por tédio que por tesão. Já foi-se o tempo das grandes paixões. Era mulher madura em corpo e coração jovem. Já tinha nascido velha, sabia disso.
Saiu do hotel e foi encontrar o moço de olhos d'água. Ele foi ao seu encontro de barco. Nessa noite em específico, os plânctons estavam em festa, e cada remada era mágica na água noturna. Ele estava com sono, ela estava sem. Acredito que o leitor esperava por uma romântica e ardente noite. Ela também, mas não foi o caso. Era uma relação sem entrega nem troca, só carência e solidão os mantinham unidos. Ela ficou a admirar as estrelas e o mar. Muito bonito tudo ao redor. Ele a dormir sono solto, ela a repensar muita coisa. Nem mal piscou os olhos e amanheceu, logo cedo como é comum nos trópicos perto do verão. A água clara, o fundo visível de peixes e tartarugas e estrelas do mar.
Esperou ele acordar para levá-la para a margem. Manhã fresca, sol lindo e morno na face. Foi deixada na areia, sem beijo, nem abraço. Só um "tenha um bom dia". Ela pensou que um abraço seria bem melhor que um beijo, talvez até mais íntimo que qualquer outro ato. Coração com coração, quentinho, e o cheiro de maresia do rapaz.
Não aconteceu. Talvez nunca acontecerá. Não com este rapaz em questão. Nem toda estória que se parece romântica realmente o é. Mesmo num cenário idílico.
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